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A média monta cobra um certificado a mais
Na classificação do Contran, o lote de média monta só volta a rodar com Certificado de Segurança Veicular, custo que a ficha do leilão não soma.
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A emenda que decide a classe do dano
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Um hatch prata parado na fila 4 de um pátio de leilão traz uma coluna de aço de 1,2 milímetro de espessura, cortada rente ao trilho do cinto e emendada de volta com um cordão de solda MIG de dois dedos de largura. O corte tem rebarba, a tinta em volta está queimada num anel marrom e o ponto de ancoragem do cinto de segurança ficou a menos de um palmo da emenda. Aquela solda conta a história inteira do veículo: ele bateu, teve estrutura afetada e foi reparado por alguém.
Um carro assim não é um carro qualquer com pintura nova. Ele carrega uma classificação administrativa que o acompanha pelo resto da vida no registro nacional, e essa classificação decide se a placa volta a circular, quanto custa voltar e sob qual carimbo. A norma do Contran, o Conselho Nacional de Trânsito, separa o veículo sinistrado em três classes segundo a gravidade do dano: pequena monta, média monta e grande monta.
A classe do meio é a que enche os lotes de leilão de seguradora. Média monta quer dizer dano que atingiu componente estrutural ou de segurança e ainda admite reparo técnico: longarina amassada, coluna comprometida, assoalho rasgado, torre de suspensão deslocada. O veículo pode voltar à rua, sem apagar o registro do sinistro, e a volta tem um pedágio próprio.
Esse pedágio se chama CSV, o Certificado de Segurança Veicular, documento emitido por uma ITL, a Instituição Técnica Licenciada, oficina de engenharia credenciada pelo Inmetro para atestar que o reparo devolveu ao veículo as condições de segurança de fábrica. Sem esse papel, o Detran não libera nova vistoria nem emite documento, e o carro fica no quintal com placa que não licencia.
A ficha do lote no site do leiloeiro raramente traz esse número. Ela informa marca, modelo, ano, avaliação e a expressão média monta, e para por aí. O comprador soma lance, comissão do leiloeiro, pátio e frete, e monta um orçamento que ignora o item mais caro do caminho. Vale abrir a conta inteira: como a classe é carimbada, o que o certificado cobra e o que conferir na visitação antes de registrar lance num sinistrado.
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I Pátio do Dia
A coluna que decide a classe do dano
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O carimbo de média monta nasce na seguradora e vive no Renavam.
O carimbo de sinistrado não nasce no leilão. Ele nasce no processo de indenização da seguradora, quando o perito avalia o veículo batido e conclui que o conserto passa do limite contratual, quase sempre fixado em torno de 75% do valor de mercado da apólice. A seguradora paga o segurado, recebe o salvado e assume a obrigação de comunicar o sinistro ao órgão de trânsito.
A classe do dano é registrada no Renavam e viaja junto com o chassi para sempre, de modo que qualquer consulta de placa feita anos depois devolve o veículo marcado como sinistrado reparado. Nenhuma pintura, troca de proprietário ou transferência entre estados apaga a anotação.
O critério que separa as três classes olha para onde o dano bateu, não para quanto ele custa a consertar. Amassado em paralama, porta, capô, farol e para-choque fica em pequena monta, porque nenhuma dessas peças sustenta o veículo. O dano que alcança monobloco, longarina, coluna, assoalho, torre de suspensão, sistema de direção ou de freio sobe para média monta.
O que separa a média da grande monta
Grande monta é a classe terminal. O veículo com deformação que inviabiliza o retorno seguro à circulação recebe baixa definitiva do registro e deixa de existir como automóvel: vira lote de peças, e o chassi precisa ser destruído. Quem arremata esse lote compra sucata com origem documentada, não compra carro.
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"O proprietário de veículo irrecuperável ou definitivamente desmontado deverá requerer a baixa do registro, no prazo e forma estabelecidos pelo CONTRAN, sendo vedada a remontagem do veículo sobre o mesmo chassi, de forma a manter o registro anterior."
> Código de Trânsito Brasileiro, Lei 9.503, artigo 126, 1997
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A média monta senta entre as duas pontas e concentra a armadilha. O leilão anuncia um veículo que roda de novo, o que é verdade, sem informar o percurso técnico que separa o pátio da rua. O arrematante recebe uma nota de arrematação, o documento antigo com a anotação de sinistro e a tarefa de provar ao Estado que o conserto ficou bom.
No lote de seguradora, a descrição costuma vir curta: modelo, ano, quilometragem estimada, condição de motor e a linha da classificação. Fotos de leilão mostram o carro pelo ângulo bom, e a área de impacto aparece em uma ou duas imagens de baixa resolução. Quem decide pela foto compra a foto.
Tem ainda um caso que confunde muito comprador de primeira viagem: o veículo classificado média monta e já reparado antes de ir a leilão. Acontece com salvado revendido por oficina credenciada, que conserta, tira o CSV e recoloca o bem no mercado. A placa desse carro circula, licencia normalmente e mantém a anotação de sinistro reparado no documento.
Saber em qual desses estados o lote está muda o orçamento por completo. Um exige reparo estrutural inteiro mais certificação; o outro já chega certificado e cobra do comprador apenas a transferência comum. A pergunta que resolve a dúvida cabe numa frase ao leiloeiro, e a resposta precisa vir por escrito no anúncio ou no edital.
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II A Conta do Documento
O que o certificado cobra além da lataria
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A conta do reparo de um sinistrado de média monta tem duas camadas que andam em ordem obrigatória. Primeiro o conserto físico, feito por profissional que entende de estrutura. Depois a certificação técnica, que só acontece com o carro pronto e com a papelada do conserto em mãos.
A ITL credenciada pelo Inmetro não certifica peça sem origem comprovada, e cada componente estrutural trocado precisa aparecer em nota fiscal com descrição, número de peça e identificação do fornecedor. Peça comprada em desmanche sem nota, ou aproveitada de outro veículo sem documentação, reprova o processo inteiro.
Essa exigência muda a lógica da compra. O orçamento barato do chapeiro de esquina costuma partir de peça usada sem procedência, que é justo o que a certificação recusa. O reparo de sinistrado, para terminar em documento, corre com peça nova ou com peça usada acompanhada de nota de desmanche legalizado, e o custo sobe em relação a qualquer conserto informal.
A sequência que leva um lote de média monta do pátio até a placa licenciada:
| 1. Laudo de entrada | registro fotográfico do estado em que o veículo saiu do leilão, feito antes de qualquer corte |
| 2. Reparo estrutural | alinhamento em maca com medição de cotas de fábrica, solda e recomposição anticorrosiva |
| 3. Notas fiscais das peças | cada item estrutural com nota, guardada para a apresentação na ITL |
| 4. Certificado de Segurança Veicular | inspeção técnica na ITL credenciada, com ensaio e relatório fotográfico do antes e do depois |
| 5. Vistoria de identificação veicular | conferência de chassi, motor, etiquetas e numeração no Detran ou em posto credenciado |
| 6. Emissão do novo documento | CRV e CRLV saem com a anotação de veículo sinistrado reparado no campo de observações |
O segundo item costuma ser subestimado por quem nunca viu uma maca de alinhamento trabalhar. Endireitar longarina não é martelar chapa: o equipamento puxa a estrutura por correntes e garras até as cotas voltarem ao especificado pelo fabricante, e cada milímetro fora da medida vira pneu comendo de lado e volante torto na reta.
O quarto item é o gargalo real do calendário. ITL credenciada não existe em toda cidade, a agenda de inspeção trabalha com fila e a reprovação obriga a refazer o serviço e marcar de novo. Contar com prazo curto entre a retirada do lote e a primeira licença é o erro de planejamento que mais aparece nesse tipo de compra.
A anotação final no documento tem efeito de mercado que dura toda a vida do veículo. Carro com registro de sinistro reparado vale menos na revenda, encontra mais resistência em financiamento e enfrenta recusa ou tarifa agravada em parte das seguradoras. O desconto do leilão precisa ser grande o bastante para cobrir também esse desconto futuro.
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