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ED 021

A segunda praça derruba o preço até o piso da lei

Primeira praça pede a avaliação inteira, segunda aceita menos, e o artigo 891 fixa em 50% o limite abaixo do qual o lance vira preço vil.

Carros penhorados parados em pátio judicial cercado.

Na segunda praça o piso é a lei, não o gosto

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Um sedã penhorado numa execução de dívida chega ao leilão com avaliação judicial de R$ 48 mil. A primeira praça abre e fecha sem um lance sequer, porque ninguém quer pagar preço de tabela por um carro que não pode ligar antes de comprar.

Quinze dias depois, o mesmo lote reaparece na segunda praça. Agora o edital aceita proposta abaixo da avaliação, e o carro sai por R$ 26 mil. A diferença de R$ 22 mil não apareceu por sorte nem por negociação, ela estava escrita no edital desde a publicação.

O leilão judicial de veículo penhorado trabalha com dois momentos e dois preços. Na primeira praça vale o valor da avaliação feita pelo oficial de justiça ou pelo perito nomeado. Na segunda, o lance pode descer, mas não até onde o arrematante quiser.

Existe um chão. O artigo 891 do Código de Processo Civil chama de preço vil o lance abaixo do mínimo fixado pelo juiz no edital e, quando o juiz não fixou mínimo nenhum, o lance abaixo de metade da avaliação. Abaixo do chão a proposta é recusada, e quando ela escapa do filtro, o juízo desfaz depois.

Esse chão explica o comportamento do mercado ao redor da segunda praça. Quem acompanha leilão de execução sabe que a faixa entre 50% e 70% da avaliação é onde a maior parte dos lotes é arrematada, e sabe também que lance colado no piso costuma virar dinheiro parado por semanas até voltar.

A conta de quem compra também muda de forma. Na segunda praça o desconto maior vem acompanhado de disputa maior, porque o lote que ninguém quis por R$ 48 mil fica atraente para muita gente por R$ 26 mil, e o preço final sobe nos minutos finais do pregão.

O martelo tampouco encerra a história. O arremate só vira propriedade depois que o juízo homologa o resultado e expede a carta de arrematação, o documento que o órgão de trânsito exige para transferir o veículo. Entre o lance vencedor e a chave na mão existe prazo processual que ninguém controla.

Quem entra nesse tipo de leilão precisa entender primeiro por que existem duas praças, e o que muda de fato quando a segunda abre.

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I  Pátio do Dia

Duas praças, dois preços do mesmo carro

A penhora prende o carro ao processo, e a segunda praça é onde o preço dele finalmente se mexe.

O carro penhorado não pertence ao Estado, ele continua sendo do devedor até o martelo cair. A penhora apenas prende o bem ao processo, tira dele a liberdade de venda e o coloca na fila para pagar a dívida executada.

Por isso o leilão judicial tem um rito diferente do leilão administrativo de pátio. Aqui existe um credor esperando dinheiro, um devedor que ainda pode quitar a dívida antes do pregão e um juiz responsável por garantir que a venda não seja um assalto ao patrimônio de quem deve.

A avaliação é o número que abre tudo. Um oficial de justiça ou um perito nomeado visita o veículo, descreve o estado aparente, consulta a tabela de referência e fixa o valor que passa a constar do processo e do edital.

Essa avaliação nem sempre reflete o preço de tela. Carro parado há dois anos no pátio judicial costuma ser avaliado pelo que aparentava valer no dia da penhora, e o dia da penhora pode ser muito anterior ao dia do leilão.

A primeira praça pede o valor da avaliação. É o momento em que a lei protege o devedor: se alguém pagar o preço cheio, a dívida é quitada com o menor sacrifício patrimonial possível.

Na prática, a primeira praça de veículo raramente recebe lance. Quem paga o valor de avaliação prefere comprar numa loja, com garantia, test drive e possibilidade de devolver.

A segunda praça existe justamente porque a primeira costuma fracassar. Ela é designada no mesmo edital, com data própria, e nela o leiloeiro passa a aceitar proposta inferior à avaliação.

O desconto é o preço que o sistema paga para converter o bem em dinheiro. Carro parado gera custo de depósito, deprecia todo mês e atrapalha o encerramento do processo, então vender abaixo da avaliação sai mais barato para todo mundo que manter o lote no pátio.

O que muda entre uma praça e outra é só o piso, não a mecânica. A visitação continua sendo a mesma janela curta, a venda continua no estado em que o bem se encontra e o comprador continua sem direito a reclamar defeito depois.

O edital costuma indicar as duas datas juntas na publicação, e quem lê apenas a primeira linha perde a segunda oportunidade. Marcar as duas datas na agenda no dia em que o edital sai é o hábito que separa quem compra de quem assiste.

 
 

II  A Conta do Documento

Onde o juiz mede o preço vil

Preço vil é o conceito que impede a segunda praça de virar liquidação total. Ele existe para que a venda forçada não transforme um carro de R$ 48 mil num negócio de R$ 9 mil, deixando o devedor sem o bem e ainda devendo quase tudo.

"Não será aceito lance que ofereça preço vil. Considera-se vil o preço inferior ao mínimo estipulado pelo juiz e constante do edital, e, não tendo sido fixado preço mínimo, considera-se vil o preço inferior a cinquenta por cento do valor da avaliação."

> Lei 13.105, Código de Processo Civil, art. 891, 2015

O texto tem duas camadas, e a ordem importa. Primeiro vale o mínimo que o juiz escreveu no edital, que pode ser 60%, 70% ou qualquer percentual que ele considere adequado ao caso. Só quando o edital silencia é que entra a régua legal de 50%.

Ler o edital resolve a dúvida em trinta segundos. Procure a cláusula que fala em lance mínimo para a segunda praça e anote o percentual, porque ele define o seu piso real de disputa naquele lote específico.

Os números que costumam decidir o custo final de um veículo penhorado:

1. Lance mínimo na primeira praça100% da avaliação
2. Piso legal da segunda praça sem mínimo fixado50% da avaliação
3. Faixa em que a maior parte dos lotes é arrematadade 50% a 70%
4. Comissão do leiloeiro sobre o valor do lanceem torno de 5%
5. Custas processuais e emolumentos da cartade R$ 200 a R$ 800
6. Débitos de IPVA e multas que o edital pode transferirvariável por lote

A comissão do leiloeiro entra por fora do lance. Ela é somada ao valor arrematado e não abate nada da dívida do devedor, então o seu desembolso real já começa uns 5% acima do número que apareceu na tela.

Quem calcula o teto usando só o preço de mercado menos o reparo esquece dessa camada e descobre a diferença no boleto. Coloque a comissão na planilha antes do primeiro lance, não depois do martelo.

A cláusula dos débitos é a linha que mais custa caro. Alguns editais dizem que o veículo é entregue livre de tributos, com os débitos abatidos do produto da venda. Outros transferem IPVA atrasado, multas e taxa de pátio para o arrematante.

Consultar o débito do veículo pela placa antes de dar lance leva alguns minutos e evita comprar um carro de R$ 26 mil com R$ 9 mil pendurados nele.

O lance abaixo do piso não é apenas recusado, ele contamina o processo.

Se a plataforma aceitar por falha e o juiz identificar depois, a arrematação é desfeita, o dinheiro volta e o tempo investido some. Vale mais disputar com margem calculada dentro da faixa legal do que caçar o lance heroico que o juízo vai derrubar semanas depois.

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III  Agenda do Detran

Do lance até a carta de arrematação

Seis passos cobrem o percurso da leitura do edital até a placa no seu nome. Os três primeiros acontecem antes de qualquer lance, e são eles que definem se o negócio existe.

1. Anote as duas datas no dia em que o edital sai. Primeira e segunda praça vêm publicadas juntas. Quem só marca a primeira descobre a segunda quando ela já passou, e o lote sumiu por metade do preço.

2. Localize a cláusula do lance mínimo da segunda praça. Se o edital fixou percentual, ele manda. Se o edital não fixou nada, o piso é 50% da avaliação, e é nesse número que você começa a montar a estratégia.

3. Consulte débitos, restrições e histórico pela placa e pelo chassi. Verifique IPVA, multas, alienação fiduciária, indício de sinistro e qualquer bloqueio judicial. Cruze o resultado com a cláusula do edital sobre quem paga o quê.

4. Monte o teto somando tudo que vem depois do martelo. Lance mais comissão do leiloeiro, custas, remoção, recondicionamento, transferência e vistoria. O teto sai do preço real de venda do modelo menos essa soma e menos a sua margem.

5. Dispute com o teto na tela e pare nele. A segunda praça atrai concorrência exatamente porque o preço caiu. Lance impulsivo nos últimos segundos costuma jogar o valor final para cima da faixa que fazia sentido.

6. Acompanhe a homologação e cobre a carta de arrematação. O auto de arrematação é assinado logo após o pregão, mas a propriedade se resolve quando o juiz homologa e expede a carta, com o prazo de eventual impugnação já vencido.

A carta de arrematação é o documento central da operação. Ela prova a origem judicial da aquisição, substitui o antigo documento de transferência e é o que o órgão de trânsito exige para registrar o veículo em nome do arrematante.

Sem ela não existe transferência, e o carro fica na sua garagem sem estar no seu nome. Por isso o acompanhamento processual depois do martelo faz parte da compra, mesmo que ninguém avise.

O primeiro erro comum é tratar a segunda praça como saldão sem limite. O piso legal existe e é aplicado, e insistir abaixo dele só queima tempo em lance que não vai vingar.

O segundo erro é confiar na avaliação como se ela fosse o preço justo do carro hoje. Avaliação antiga infla o percentual aparente do desconto, e um lance de 60% sobre um número velho pode ser 90% do valor real.

O terceiro erro é esquecer que o processo continua vivo depois do arremate. Embargos, acordo entre as partes e falha no rito podem atrasar a homologação, e o dinheiro já pago fica preso até a decisão sair.

Quem compra bem em leilão judicial trata o edital como contrato e a avaliação como opinião datada. O piso da lei protege o devedor, e é a sua conta própria que protege você.

"Você já verificou o lance mínimo da segunda praça nesse edital?"

 
 
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Sem lance mínimo fixado pelo juiz no edital, qual é o piso legal da segunda praça?

A50% do valor da avaliação, pelo artigo 891 do Código de Processo Civil
B30% do valor da avaliação, desde que o credor concorde por escrito
CNão existe piso, qualquer lance é aceito na segunda praça
D70% do valor da avaliação, percentual fixo para todo leilão judicial

Defenda seu título de Vigia (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

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