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O blindado do banco chega ao pregão com preço de sedã comum
A Fipe não tem coluna para blindagem, o deságio do lote recuperado sai sobre a versão de fábrica e o Exército entra na papelada.
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O vidro de 21 mm que entrega o blindado
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Um vidro laminado de 21 milímetros de espessura, contornado por uma faixa preta de quatro dedos na borda do para-brisa. Foi esse detalhe, na sétima foto do edital, que entregou o segredo do lote 38: o Toyota Corolla prata parado na fila do pátio não era um sedã qualquer, era um carro blindado.
A ficha falava pouco. Corolla XEi 2.0 2019/2020, flex, recuperado por um banco depois que o comprador parou de pagar o financiamento. Na linha da avaliação, o leiloeiro anotou o valor da tabela Fipe (a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, que publica todo mês o preço médio de venda de cada versão de carro) e, ao lado, o lance inicial com deságio (o desconto sobre o valor de referência) de 30%.
A tabela, porém, só conhece o Corolla que saiu da fábrica. Ela não tem coluna para blindagem, não soma as mantas de aramida (a fibra sintética que segura o projétil dentro das portas) nem o vidro grosso, e não desconta nada pelo peso extra que cansa suspensão e freio. O desconto de 30% foi calculado sobre um carro diferente do que está no pátio.
O blindado carrega ainda uma bagagem que o sedã comum dispensa: o registro no Exército. Blindagem de carro é produto controlado pelas Forças Armadas, e o documento do lote só fecha quando a papelada militar acompanha a papelada do Detran. Quem ignora essa parte arremata um carro que pode travar na vistoria de transferência e ficar semanas parado na garagem, com a parcela do seguro correndo.
O blindado recuperado, então, pede duas contas que o lote comum não pede. A primeira decide quanto a proteção vale no bolso de quem compra. A segunda soma o que a blindagem acrescenta ao documento, do certificado da blindadora à anotação no registro do veículo.
Vale abrir a ficha do lote 38, entender como o banco chegou ao número da avaliação, somar a papelada que a blindagem cria e sair daqui com a ordem dos passos entre o Exército e o Detran.
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I Pátio do Dia
O Corolla do lote 38 e a blindagem sem preço
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A Fipe avalia o carro de fábrica e deixa a blindagem de fora.
O Toyota Corolla XEi 2.0 do lote 38, ano 2019/2020, rodou cinco anos com um dono que pagava as parcelas a um banco. O carro estava em alienação fiduciária (a garantia em que o veículo fica em nome do banco até a última parcela), e o atraso abriu caminho para a busca e apreensão prevista no Decreto-Lei 911, de 1969.
Com o carro recolhido, o banco não precisa de juiz para vender. O próprio decreto autoriza a venda a terceiros, e o caminho usual é mandar o lote a um leiloeiro oficial, que monta a ficha com fotos, quilometragem declarada e a avaliação pela Fipe.
O que o decreto permite ao banco
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"independentemente de leilão, hasta pública, avaliação prévia ou qualquer outra medida judicial ou extrajudicial"
Decreto-Lei 911, artigo 2º, na redação da Lei 13.043, de 2014
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A expressão avaliação prévia explica a ficha. O banco não é obrigado a pagar um perito para medir o carro, e a Fipe vira o atalho: número público, conhecido pelo comprador e aceito pelo financiador na hora de abater a dívida do antigo dono.
A Fipe mede a versão de fábrica e para ali: o Corolla XEi 2019 blindado e o Corolla XEi 2019 sem blindagem saem da consulta com o mesmo valor, porque a tabela não tem campo para item instalado depois que o carro deixou a montadora. A blindagem feita numa oficina especializada, meses depois da compra, fica invisível para o número que abre o pregão.
Na ficha do lote 38, a Fipe aparece em R$ 110 mil, e o lance inicial vem com 30% de desconto, R$ 77 mil. Os números são deste lote; em outro pregão, com outro modelo, a conta muda, mas a lógica fica.
O desconto promete vantagem sobre o carro comum. Para o blindado, a proteção pode valer muito para quem precisa dela e pouco para quem só quer um sedã: ela pesa, gasta a suspensão mais cedo, encarece a troca de um vidro trincado e encurta a lista de interessados na revenda.
O comprador de blindado recuperado usa a Fipe só como ponto de partida para o carro sem blindagem. Em cima dela, faz duas contas próprias: quanto a proteção vale para ele e quanto custa deixar a blindagem regular no papel. A segunda conta mora no documento.
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II A Conta do Documento
O Exército entra na ficha do blindado
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A blindagem acrescenta ao documento do lote 38 uma camada que o Corolla comum não tem. O Exército Brasileiro fiscaliza a blindagem como produto controlado, com as regras reunidas na Portaria 94 do Comando Logístico, de 2019, e cada carro blindado fica registrado no sistema militar com o proprietário, a blindadora e o nível de proteção.
No Detran, a blindagem aparece no campo de observações do CRLV-e (o Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo em versão digital). É por essa anotação que a vistoria de transferência confere se o carro no pátio é o carro do cadastro.
Na transferência, o novo dono de um blindado precisa passar a propriedade da blindagem para o próprio nome no Exército, e o Detran confere se o carro vistoriado bate com o registro: blindagem sem anotação no documento vira divergência, e divergência trava a transferência.
A conta do Corolla blindado depois do martelo:
| 1. Registro da blindagem no Exército | passa para o nome de quem arrematou |
| 2. Anotação no CRLV-e | campo de observações com a blindagem |
| 3. Documentos da blindadora | certificado e nota do serviço, pedidos na regularização |
| 4. Vistoria de transferência | a ECV (Empresa Credenciada de Vistoria) confere vidros, portas e anotação |
| 5. Débitos de antes do pregão | quitados com o arrecadado, conforme o edital |
| 6. Revisão da blindagem | vidros e borrachas, por conta do arrematante |
A terceira linha é a que some com mais frequência. O carro recuperado pelo banco raramente chega com a pasta do antigo dono no porta-luvas, e o edital costuma avisar que a documentação da blindagem não acompanha o lote. A saída é pedir segunda via à blindadora, identificada pela plaqueta que ela costuma fixar na coluna da porta.
A sexta linha tem sinal visível. O vidro blindado é um sanduíche de camadas coladas, e com o tempo a cola pode soltar na borda, a chamada delaminação, que aparece como manchas leitosas ou bolhas perto da faixa preta. Vidro delaminado se troca, e a troca de um para-brisa blindado custa bem mais que a de um vidro comum.
O teto do lance sai dessa soma. Parte da Fipe do carro comum, tira o desconto exigido para correr o risco de pátio, acrescenta quanto a proteção vale no seu uso e subtrai a regularização e a revisão. Se a soma der abaixo do lance inicial, o lote não serve.
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