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O carro que sai do pátio sem direito a placa
Conservado, recuperável e sucata são as três palavras do edital, e a consulta do chassi no Detran diz qual delas o seu lote carrega.
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Lote sem para-choque, à espera da classificação
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Dois hatch do mesmo ano, da mesma cor e com quilometragem parecida entraram no mesmo pregão de terça-feira. Um arrematou por R$ 21.400. O outro parou em R$ 5.900, e quem levou o segundo não vai emplacar o carro nunca.
A diferença não estava na foto, e também não estava no motor. Estava numa palavra impressa no alto da ficha do lote, acima da placa parcial e da quilometragem, onde a leiloeira declara a classificação do veículo.
O edital brasileiro trabalha com três. Conservado devolve o carro pra rua com documento. Recuperável devolve depois de reparo, laudo e uma observação que fica no registro pelo resto da vida. Sucata encerra o registro daquele chassi.
A palavra pesa mais que a lataria porque ela não descreve o estado do carro. Ela descreve o que o Detran vai permitir depois do martelo. Lote amassado classificado como recuperável ainda volta a rodar. Lote quase inteiro classificado como sucata sai do pátio rebocado e termina em peça de reposição.
O preço acompanha a palavra, e a distância entre as três é grande. Lote conservado costuma abrir entre 25% e 40% abaixo da tabela Fipe. Recuperável abre bem mais fundo, porque o comprador ainda vai pagar a reforma e a vistoria. Sucata é vendida por peça e por peso, sem relação com a Fipe do modelo.
O vocabulário muda de leiloeira pra leiloeira, e é aí que o comprador tropeça. Aparece sucata aproveitável, veículo baixado, sinistrado de grande monta, sem direito a documento, para circulação. Nomes diferentes cobrindo o mesmo efeito no registro.
O efeito é público e conferível antes do lance. A situação do chassi está na consulta do Detran do estado, aberta, de graça, com placa e Renavam, e ela responde em minutos aquilo que foto de pátio nunca responde.
Vale começar pelas três palavras: o que cada uma promete, o que exige e onde aparece escrita no edital.
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I Pátio do Dia
As três palavras no alto da ficha
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Conservado, recuperável e sucata não falam da lataria. Cada palavra manda o lote pra um destino diferente no Detran.
O edital não classifica o carro pela aparência, e sim pelo que sobrou do registro dele no sistema. Dois veículos com o mesmo amassado podem sair em classificações diferentes, porque o que pesa é a decisão registrada antes do leilão: o laudo da seguradora, a baixa pedida pelo antigo dono ou a determinação do órgão que apreendeu.
Conservado é o lote com registro ativo e sem restrição de circulação. O edital costuma escrever com direito a documento ou para circulação. Quem arremata paga, recebe a autorização de transferência e emplaca no próprio nome, sem laudo extra e sem carimbo novo na ficha.
Conservado fala do papel, nunca do motor. O mesmo lote pode estar com bateria descarregada, embreagem no fim e quatro pneus vencidos, e continua sendo conservado. A classificação garante o caminho até a placa, não o estado mecânico do carro.
Recuperável é o lote que sofreu dano de média gravidade e depende de laudo pra voltar. A carroceria foi atingida na estrutura, e o retorno à rua exige reparo, nova vistoria de identificação e laudo técnico antes de o Detran liberar o registro.
Em leilão de seguradora a mesma condição aparece como média monta. O dano alcançou longarina, coluna, assoalho ou teto, e não apenas para-choque, farol e capô, que são peças de fixação.
O carro recuperado volta a circular, e volta marcado. A observação de sinistrado entra no registro e acompanha o veículo em toda venda seguinte, em qualquer estado do país.
Sucata é o fim do registro. O veículo irrecuperável ou definitivamente desmontado tem a baixa requerida no Detran, e a baixa é permanente. Aquele chassi não recebe placa de novo, nem depois de reforma, nem em outro estado, nem com laudo nenhum.
O edital divide a sucata em duas prateleiras. Sucata aproveitável é o lote que ainda tem peça boa pra recolocar em outro carro. Sucata irrecuperável, também chamada de ferro velho ou de prensa, segue pra reciclagem do metal.
Quem pode comprar sucata muda de edital pra edital. A Lei 12.977, de 2014, exige registro específico das empresas de desmontagem, e muitos leilões restringem o lote a pessoa jurídica com essa atividade no CNPJ, com retirada obrigatória por guincho.
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A palavra no alto da ficha não descreve o estado do carro, ela descreve o que o Detran vai permitir depois do martelo.
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Nos leilões de veículos apreendidos e removidos, o Código de Trânsito Brasileiro separa os destinos pelo mesmo critério: o veículo em condições de uso vai a pregão para circulação, e o irrecuperável vai como sucata, com destinação controlada.
A leiloeira costuma marcar o pátio com etiqueta ou cor, e a marca do vidro é a que menos vale. O que vale é a palavra do lote publicado e a cláusula do edital que define aquela palavra naquele leilão.
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II A Conta do Documento
O laudo que o recuperável cobra depois
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O deságio do lote recuperável é o mais fundo do pátio, e ele tem motivo. O comprador não está levando um carro pronto, está levando um projeto com prazo, orçamento e prova final no Detran.
O primeiro item da conta é o reparo estrutural. Endireitar longarina e coluna pede máquina de tração, medição de alinhamento de estrutura e solda no ponto certo, serviço que raramente fecha abaixo de R$ 5 mil num popular, sem as peças.
O segundo item é a prova. Depois do reparo, o veículo passa por vistoria de identificação veicular, e reparo de estrutura costuma exigir laudo técnico de instituição licenciada antes da liberação. A vistoria estadual sai entre R$ 150 e R$ 400, e o laudo costuma ficar entre R$ 400 e R$ 1.200.
O terceiro item não é dinheiro que sai, é dinheiro que não entra depois. O registro do carro recuperado carrega a observação de sinistrado, e ela reaparece na consulta de todo comprador futuro, na cotação de seguro e na análise de financiamento.
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"O proprietário de veículo irrecuperável ou definitivamente desmontado deverá requerer a baixa do registro, no prazo e forma estabelecidos pelo CONTRAN, sendo vedada a remontagem do veículo sobre o mesmo chassi, de forma a manter o registro anterior."
Código de Trânsito Brasileiro, art. 126, 1997
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A frase separa reparar de reabrir registro. Enquanto o registro está de pé, o carro pode ser recuperado dentro das regras. Depois da baixa, a lei proíbe a remontagem sobre o mesmo chassi, pra impedir que veículo baixado volte a circular com identidade antiga.
Monte a conta antes do pregão. Um recuperável com Fipe de R$ 48 mil abrindo em R$ 18 mil parece 62% de desconto na tela.
Some 5% de comissão do leiloeiro e a taxa da leiloeira, cerca de R$ 1.100. Some R$ 9 mil de estrutura, funilaria e peças, R$ 1.200 de laudo e vistoria, R$ 600 de transferência e mais R$ 800 pra acordar um carro que passou meses parado.
O veículo pronto na sua garagem custa perto de R$ 30,7 mil. Se o destino é uso próprio por anos, a conta fecha bem. Se o destino é revenda, o mesmo carro marcado como sinistrado costuma sair de 20% a 30% abaixo da Fipe, perto de R$ 34 mil, e a margem cabe num único imprevisto de oficina.
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Sucata não entra nessa conta, porque ela não tem conta de reforma: o preço dela é o preço das peças, e aquele chassi não volta a emplacar em hipótese nenhuma.
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No lote conservado a conta é mais curta: comissão, débitos que o edital não assumir, chave, transferência e a manutenção do carro que ficou meses parado.
A classificação aparece inteira no teto de lance. Conservado tem teto na Fipe menos as despesas. Recuperável desconta ainda a reforma, o laudo e a perda permanente de revenda. Sucata tem teto na soma das peças.
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III Agenda do Detran
A consulta de chassi antes do lance
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Cinco conferências resolvem a classificação e o chassi. As duas primeiras se fazem de casa, e derrubam a maior parte dos lotes ruins.
1. A palavra no edital, lida no PDF inteiro. Baixe o arquivo e busque sucata, baixa, baixado, recuperável, circulação, documento, monta, retirada e guincho. A palavra do topo do lote vale o que a cláusula do corpo definir, e a cláusula quase sempre mora depois da metade do arquivo.
2. A consulta pública do Detran do estado, por placa e Renavam. A tela devolve situação do registro, restrições em aberto, observação de sinistrado, baixa, comunicação de venda, queixa de furto e bloqueio judicial. Salve a página com data e hora e compare com o edital, linha por linha.
3. O chassi conferido em três pontos do carro. Etiqueta no vidro, gravação na estrutura e etiquetas de peça precisam trazer o mesmo número do edital. Gravação refeita, etiqueta ausente ou número divergente encerra o lote, porque veículo com chassi adulterado não passa na vistoria de identificação.
4. A vistoria presencial, com a mão na estrutura. Procure longarina amassada, coluna com solda nova, assoalho enrugado, porta que não fecha no vão e teto com marca de tração. É a diferença física entre o lote que o laudo aprova e o lote que o laudo recusa.
5. O destino escrito, antes de qualquer pagamento. Confira quem pode arrematar aquele lote, como é a retirada e qual o prazo do pátio. Sucata costuma exigir CNPJ com atividade de desmontagem e sair de guincho, e veículo sem direito a circular não pode rodar até em casa: conduzir carro não registrado e não licenciado é infração grave, com remoção do veículo.
A ordem economiza o seu dia. O edital diz o que o lote é, a consulta do Detran diz o que o sistema registra, a vistoria diz o que o carro aguenta e a regra de retirada diz quanto vai custar tirar o lote de lá.
A consulta do Detran é a única que fala do chassi, e não do carro. Ela ignora pintura nova, lavagem caprichada e foto bem tirada, e devolve a situação do registro na data em que você consultou.
Divergência entre o edital e a tela do Detran não é detalhe de cadastro. Leve as duas versões pra leiloeira por escrito, antes do pregão, e guarde a resposta. Sem resposta, o lote sai da sua lista.
Marque a visitação e o pregão no calendário, e refaça as consultas na véspera. Restrição entra e sai do sistema, e a tela que vale é a última antes do lance.
Lote sem classificação declarada não é lote barato, é lote sem informação. No leilão de veículo a informação que falta cobra o preço depois, no balcão do Detran.
"Qual palavra está no alto da ficha do lote que você quer, e o que a consulta do chassi disse sobre ela?"
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Quiz da edição
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Depois da baixa de um veículo irrecuperável, o Código de Trânsito Brasileiro proíbe expressamente uma coisa. Qual?
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