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O Gol do lote 37 foi comparado com um carro 1 ano mais novo

A ficha do leilão trazia 2018, o ano em que o carro saiu da fábrica, e a Fipe organiza o preço pelo ano modelo.

Uma plaqueta metálica de identificação com números gravados, presa na coluna da porta de um carro prata num pátio.

Plaqueta 2018/2018 na coluna da porta

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Uma plaqueta de alumínio de 9 centímetros, rebitada na coluna da porta do motorista de um Volkswagen Gol prata. Nela, gravados em baixo relevo, estavam o chassi, o código do motor e dois anos lado a lado: 2018/2018.

A plaqueta provava que o carro tinha saído da fábrica em 2018 e tinha sido vendido como modelo 2018. Ninguém no leilão olhou para ela antes do martelo.

O Gol estava no pátio de uma leiloeira em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, como lote 37 de um pregão de carros retomados por financeira. Retomado é o carro que o banco recolhe quando o comprador para de pagar as parcelas.

A ficha do lote, publicada na página da leiloeira, trazia oito campos: marca, modelo, cor, combustível, quilometragem, placa final 4, condição de partida e ano. No campo do ano, um número só, 2018.

Aquele 2018 era o ano de fabricação, copiado do sistema da financeira. A ficha não dizia qual era, e quem abriu a página leu o número como bem entendeu.

A tabela Fipe, publicada todo mês pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, ligada à Universidade de São Paulo, não tem coluna de fabricação. Cada modelo aparece numa lista de linhas, e cada linha corresponde a um ano modelo.

O ano modelo é o ano de linha que a montadora atribui ao carro, e no Brasil ele pode ficar igual ao de fabricação ou andar um ano à frente. Um carro montado em outubro de 2018 costuma sair das concessionárias como 2018/2019.

Quem se acostumou com essa dupla tende a somar um ano por reflexo. Vê 2018 na ficha, imagina 2018/2019 e abre a linha de 2019 da tabela, que vale mais, porque mostra um carro mais novo.

O lance mínimo do Gol era de R$ 31.000. Contra a linha errada, o lote parecia barato de um jeito que a linha certa desmentia.

Quem caiu no reflexo, quanto a conta mudou quando os dois anos apareceram no documento e o que o Detran exige depois do arremate estão nas três partes abaixo.

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I  Pátio do Dia

O reflexo de somar 1 ano

Um Gol de financeira arrematado por R$ 33.200 com o ano conferido na plaqueta.

A compradora é Rosana Mendes Albuquerque, 44 anos, técnica de enfermagem em Betim. Ela procurava um carro 1.0 para trocar o ônibus de duas conduções pelo trajeto até o hospital, e tinha R$ 36.000 guardados para a compra e os papéis.

Rosana já tinha comprado dois carros usados em loja, ambos com o ano anunciado na dupla 2014/2015 e 2016/2017. Os dois tinham fabricação e modelo separados por um ano, e ela guardou a dupla como regra.

Na noite anterior ao pregão, ela abriu a ficha do lote 37 no celular, viu o 2018 e entrou na página da Fipe. Escolheu Volkswagen, Gol 1.0 Flex 12V 5 portas, e na lista de anos clicou em 2019.

A linha de 2019 mostrava R$ 44.800. Rosana fez a conta no bloco de notas: lance mínimo de R$ 31.000 contra R$ 44.800 dava um desconto de 31%, folga suficiente para pagar comissão, taxas e um jogo de pneus.

O que a visita mostrou

A leiloeira abria o pátio para visitação na manhã do pregão, das 8h às 11h. Rosana chegou às 8h20 com o cunhado, que é mecânico de oficina pequena em Contagem.

O cunhado conferiu o óleo, o nível da água e a correia, e pediu para ver a coluna da porta. Ali estava a plaqueta de alumínio com 2018/2018 gravado ao lado do chassi.

A ficha do leilão costuma trazer o ano de fabricação; a tabela Fipe só conhece o ano modelo.

Rosana voltou à página da Fipe ali mesmo, no pátio, e trocou a linha. O Gol 1.0 ano modelo 2018 aparecia por R$ 41.900.

A conta encolheu. O desconto do lance mínimo caiu de 31% para 26%, e a folga para custos ficou R$ 2.900 menor antes de qualquer lance.

O cunhado ainda mostrou um segundo lugar onde o ano aparecia: a etiqueta no para-brisa, com o chassi gravado no vidro. O décimo caractere do chassi era a letra J, que no padrão internacional de numeração de veículos corresponde ao ano modelo 2018.

Rosana refez o teto de lance com a linha certa. Decidiu parar em R$ 33.500, valor que ainda deixava R$ 2.500 para pneus, documento e imprevistos.

O pregão começou às 14h. Cinco participantes disputaram o lote 37, e o Gol foi dela por R$ 33.200, trezentos reais abaixo do teto que ela tinha anotado no pátio.

 
 

II  A Conta do Documento

A coluna que a tabela não tem

A Fipe monta a tabela a partir de preços de anúncio coletados no país inteiro e publica um valor por combinação de modelo, versão, combustível e ano modelo. O ano de fabricação não entra em nenhuma linha.

Cada versão recebe um código Fipe, um número de sete dígitos que identifica o modelo exato. Dentro desse código, os anos aparecem em sequência, e dois carros fabricados em 2018 podem cair em linhas diferentes da mesma lista, 2018 ou 2019.

O ano modelo nasce na montadora, mas é no registro do Detran que ele ganha força de documento. O Código de Trânsito Brasileiro trata do registro assim:

“Todo veículo automotor, elétrico, articulado, reboque ou semirreboque, deve ser registrado perante o órgão executivo de trânsito do Estado ou do Distrito Federal, no Município de domicílio ou residência de seu proprietário, na forma da lei.”

Lei 9.503, de 23 de setembro de 1997, Código de Trânsito Brasileiro, artigo 120

Nesse registro, o carro recebe os campos que acompanham cada transferência. Dois deles ficam lado a lado no CRLV (o Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo, o documento que vai no carro): ano de fabricação e ano modelo.

Onde cada ano aparece

Antes do lance, o ano modelo pode ser lido em quatro lugares:

• No CRLV, no campo ano fab/ano mod

• No décimo caractere do chassi

• Na plaqueta da coluna da porta

• Na consulta da placa na página do Detran

A ficha do leilão fica fora dessa lista porque é texto do leiloeiro, copiado do sistema do comitente (a empresa dona do carro, aqui a financeira). Se o comitente cadastrou só a fabricação, a ficha repete só a fabricação.

Quanto pesa 1 ano de linha

No caso de Rosana, a linha de 2019 valia R$ 2.900 a mais que a de 2018. Em carro popular de cinco a oito anos, a distância entre duas linhas vizinhas da Fipe costuma ficar nessa faixa.

O peso cresce com o preço do carro. Numa picape média ou num SUV, uma linha de diferença pode passar de R$ 8.000, e o deságio que parecia generoso some antes de entrar a comissão do leiloeiro.

O erro corre nos dois sentidos. Um carro 2018/2019 conferido na linha de 2018 parece mais caro do que é, e o comprador pode largar um lote bom por achar o desconto curto.

A seguradora faz a mesma pergunta quando cota o carro, e pede o ano modelo pelo documento. Se a apólice sair com o ano errado, a indenização por perda total segue a linha que está no contrato.

 

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III  Agenda do Detran

30 dias entre o recibo e o CRLV novo

A nota de venda da leiloeira chegou a Rosana por email dois dias depois da quitação. Junto vinha o recibo de transferência assinado pela financeira, com firma reconhecida em cartório.

O prazo para a transferência veio do artigo 123 do Código de Trânsito Brasileiro. Quem compra tem 30 dias, contados da data do documento de venda, para registrar o carro no próprio nome.

Antes de marcar a vistoria, Rosana conferiu os dois anos em cada papel. O recibo da financeira, a nota da leiloeira e a consulta da placa na página do Detran de Minas Gerais traziam 2018/2018.

A sequência dela depois do martelo

1. Confira o ano modelo na nota de venda. Se a nota trouxer só um ano, peça à leiloeira a correção antes de assinar qualquer papel.

2. Agende a vistoria de transferência. Em Minas, a vistoria é feita por empresa credenciada, que confere chassi, motor e plaquetas.

3. Leve recibo, nota e documento de identidade. O vistoriador compara o chassi gravado no carro com o que está no recibo.

4. Pague as taxas de transferência no Detran. O boleto sai pela internet, e o CRLV novo chega em formato digital.

5. Faça o seguro com o ano do CRLV. Rosana copiou o 2018/2018 do documento novo na proposta da seguradora.

Ela levou 17 dias entre a quitação e o CRLV no próprio nome. Trocou dois pneus dianteiros e a bateria, e passou a ir de carro para o hospital na terceira semana.

Somando lance, comissão de 5% da leiloeira, taxas do Detran, vistoria, pneus e bateria, a conta fechou em R$ 36.400. Ficou R$ 400 acima do que ela tinha guardado, diferença que saiu do salário seguinte.

O carro equivalente que Rosana encontrou em loja de Betim, um Gol 1.0 2018/2018 com quilometragem parecida, estava anunciado por R$ 42.500.

“Você já conferiu o ano modelo do lote antes de abrir a tabela Fipe?”

O sinal de risco aparece quando a ficha do lote traz um ano só. Nesse caso, leia o décimo caractere do chassi na visita ou peça ao leiloeiro a consulta da placa antes do lance; sem o ano modelo confirmado até o fim da visitação, calcule o deságio pela linha mais barata das duas possíveis.

 
 
Quiz da edição

No chassi do Gol do lote 37, qual letra apareceu no décimo caractere e confirmou o ano modelo 2018?

AH
BJ
CK
DF

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